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domingo, 9 de junho de 2013
A FILOSOFIA DA LINGUAGEM EM PLATÃO E ARISTÓTELES
A linguagem é a grande febre da filosofia contemporânea. Há quem diga que todo o trabalho filosófico se resume na análise conceitual ou análise da linguagem. Para bem ou para mal, este é o panorama contemporâneo, que se configura desde a chamada reviravolta lingüística no início do século passado. No entanto, pensa erroneamente quem acha que somente a filosofia contemporânea tem discursado sobre a linguagem, pelo contrário, a preocupação com a linguagem, sua origem, função, alcance e limites são objeto de estudo já dos filósofos da antiguidade. Portanto a filosofia da linguagem a tão antiga quanto a própria filosofia.
Desta forma, este trabalho tem como objetivo tratar da filosofia da linguagem presente nas obras de Platão e Aristóteles, uma vez que ninguém faz filosofia sem passar por esses. Primeiramente apresentaremos o estudo da linguagem no pensamento platônico e posteriormente a posição aristotélica frente à linguagem.
A FILOSOFIA DA LINGUAGEM EM PLATÃO E ARISTÓTELES
1. PLATÃO
Em Platão a linguagem é abordada no diálogo Crátilo. Assim sendo se nosso intuito é a compreensão da noção de linguagem contida em Platão precisamos nos deter nesse diálogo. Crátilo é o escrito básico sobre linguagem da filosofia helênica. Foi escrito entre os anos 380 e 367 a.C. É dividido em duas partes distintas. Na primeira, Sócrates dialoga com Hermógenes, um filósofo novo e ainda desconhecido. Na segunda parte Sócrates dialoga com Crátilo. Este foi mestre de Platão, filósofo defensor extremista da tese do “tudo flui” de Heráclito e um filósofo já conhecido, ao contrário de Hermógenes. Em linhas gerais o diálogo trata da relação nome e objeto, ou seja, linguagem e realidade, sem, no entanto chegar a uma conclusão. Trata-se de uma aporia. Contudo, esta falta de solução no diálogo Crátilo não é uma deficiência. A ausência de uma resposta explícita decorre das dificuldades naturais que o paradigma racional de Platão encontra ao investigar a realidade empírica.
No diálogo que ocupa a primeira parte de Crátilo Sócrates interroga Hermógenes tentando refutar a sua tese convencionalista acerca da linguagem. Para Hermógenes toda a linguagem é convenção humana e está longe de alcançar a realidade da essência das coisas. Entretanto, os nomes parecem possuir, contrariamente à opinião de Hermógenes, uma certa justeza natural, ou seja, os nomes parecem ter alguma espécie de ligação com a sua essência. Para tal prova Sócrates recorre à análise das etimologias dos nomes onde em alguns casos parece haver essa justeza natural. Mas veremos adiante que a análise das etimologias dos nomes também se revelará num argumento favorável à tese de Hermógenes.
Num segundo momento o diálogo é com Crátilo, e Sócrates tenta mostrar as deficiências da noção de linguagem como algo ligado diretamente à natureza das coisas, isto é, as falhas da tese naturalista. No entanto, contra Crátilo, parece que nem todos os nomes são exatos por natureza. Eles podem ser inexatos, e o uso e a convenção podem ter uma parte importante na sua formação. Além disso, uma análise pormenorizada da etimologia dos nomes mostra que, mesmo alguns tendo ligação com a essência das referidas coisas, estes sofrem mudanças durante o tempo, e isso reforça a tese contrária.
Logicamente dada o emaranhado que se encontra a discussão e como em todos os diálogos platônicos, Sócrates não defende a tese de um detrimento a de outro, mas reafirma a sua ignorância. Desta forma todo o diálogo é um trabalho de mostrar as falhas de uma e de outra tese. A linguagem não é para Platão nem natural nem convencional, e neste sentido o diálogo, como já dissemos, é inconcluso ou aporético.
2. ARISTÓTELES
Aristóteles é discípulo de Platão, mas diverge deste em muitos aspectos. Assim após várias tentativas de direcionar as indagações filosóficas através de diálogos, como fez seu mestre, ele passou a utilizar o tratado, porque segundo ele, o tratado permite conduzir a pesquisa com mais ordem, clareza e objetividade.
Aristóteles entendia a linguagem humana como discurso, e este se dá através de quatro maneiras: Poética, Dialética, Retórica e Lógica (aqui entendida como Analítica). Podemos também chamar de os quatro discursos de Aristóteles. Estes discursos tratam de quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra, influenciar a mente de outrem (ou sua própria).
Seria um pouco difícil aplicarmos a cada discurso de modo separadamente sobre uma mesma situação, pois ambos estão interligados. Há uma necessidade de junção para que a linguagem venha a ser possível, vejamos, pois que
o homem discursa para abrir a imaginação à imensidade do possível, para tomar alguma resolução prática, para examinar criticamente a base das crenças que fundamentam suas resoluções, ou para explorar as conseqüências e prolongamentos de juízos já admitidos como absolutamente verdadeiros, construindo com eles o edifício do saber científico (CARVALHO, 2006).
Passaremos a tratar a cada uma das maneiras pelas quais Aristóteles afirmava ser possível a linguagem.
2.1. A POÉTICA
A Poética, bem como seu discurso versa sobre o possível dirigindo-se, sobretudo à imaginação, que capta aquilo que ela mesma presume. Não necessariamente necessita ocorrer aquilo que é narrado, mas pode ser algo criado pela imaginação.
Entendemos por poética uma crítica literária que trata da natureza, da forma e das leis da poesia, dirigindo-se, sobretudo à imaginação, que capta aquilo que ela mesma presume.
Houve uma objeção de Platão a este pensamento, que segundo o qual afirmava que a arte da poesia não passava de uma “cópia da cópia, aparência de aparência” (REALE, 1990, p.220), refutando assim a idéia sobre a qual o ser humano é capaz criar alguma coisa. Em resposta a essa objeção afirma Aristóteles que “a função do poeta não é a de dizer as coisas acontecidas, mas sim as que poderiam acontecer e suas probabilidades, de acordo com a verossimilhança e a necessidade” (REALE, 1990, p.220). A Arte da poesia é entendida por Aristóteles como a recriação das coisas segundo uma nova dimensão.
A Poética é também entendida como mimese , ou como catarse . Na mimese encontramos aqui o sentido platônico: repetição de fatos que ocorreram no passado. “A atividade mimética em Aristóteles não é, necessariamente, uma reprodução da natureza tal qual é; é, pelo contrário, uma experiência sobre a natureza que [...] conduz à informação do caráter superior do homem [...] à do caráter vulgar do homem” (BITTAR, E. 2003. p. 1384).
Como catarse entende-se que a poesia leva o interlocutor a mergulhar dentro de si de modo que seja tocado pela emoção, sendo assim purificado de suas paixões. Lembrando que isso não é uma dominação que reduz o ser de racional para emotivo, mas uma descarga de emoções que proporcionam ao ser humano uma recuperação ou purificação de suas paixões.
A purificação das paixões acontecia nas peças ligadas à Tragédia : Por meio das expressões de piedade e do terror o interlocutor acaba por efetuar a purificação das paixões.
2.2. A LÓGICA
Aristóteles foi o primeiro a fazer um estudo sistemático dos conceitos, ou seja, das idéias procurando descobrir as propriedades que eles têm enquanto produzidos em nossa mente, como podem ser unidos e separados, divididos e definidos, e como é possível tirar conceitos novos de conceitos conhecidos anteriormente. Segundo Aristóteles, todas as idéias podem ser reduzidas a 10 grandes grupos, chamados de predicamentos ou categorias, a saber: SUBSTÂNCIA, QUALIDADE, QUANTIDADE, AÇÃO, PAIXÃO, RELAÇÃO, TEMPO, LUGAR, POSIÇÃO E HÁBITO. E todas as idéias têm: COMPREENSÃO (abrangem certas características, perfeições ou qualidades), EXTENSÃO (são aplicáveis a certo número de coisas).
Para deduzir conceitos novos de conceitos conhecidos anteriormente, Aristóteles elaborou uma técnica simplicíssima e, em certo sentido perfeita: O SILOGISMO, que é um grupo de três proposições entrelaçadas de tal maneira que as duas primeiras implicam necessariamente a terceira: Ex.: Todo homem é mortal. Sócrates é mortal. Logo, Sócrates é homem! O silogismo possui várias formas, sendo elas perfeitas, ou imperfeitas; as imperfeitas podem ser reduzidas às perfeitas mediante a conversão ou a transposição das premissas.
Aristóteles também fala de outra forma de raciocínio, a saber, a INDUÇÃO. À diferença do silogismo (que parte de proposições mais universais para chegar a proposições menos universais), a Indução parte de casos particulares ou de proposições menos universais para chegar a uma proposição mais universal.
2.3. A RETÓRICA
O objetivo da retórica é de persuadir ou mais exatamente o de descobrir quais são os modos e meios para persuadir. Assim podemos concluir que a retórica é uma espécie de metodologia do persuadir, uma arte que analisa e define os procedimentos através dos quais o homem procura convencer os outros homens e identifica as suas estruturas fundamentais. Ela estuda os procedimentos com os quais os homens aconselham, acusam, defendem-se e elogiam (com efeito, essas são todas as atividades específicas do persuadir) em geral, não se movendo a partir de conhecimentos científicos, mas de opiniões prováveis.
No discurso retórico, o homem influencia a vontade de outro homem através do método de persuasão, buscando atingir a verdade e assim influenciar na criação de uma determinada crença.
2.4. A DIALÉTICA
Diferentemente do discurso retórico, o discurso dialético não visa sugerir ou impor uma determinada crença, mas por sua vez tenta submeter às crenças já existentes à prova, através de objeções. “O discurso dialético mede enfim, por ensaios e erros, a probabilidade maior ou menor de uma crença ou tese, não segundo sua mera concordância com as crenças comuns, mas segundo as exigências superiores da racionalidade e da informação acurada”.
No discurso dialético, os participantes investigam uma hipótese a respeito de um determinado assunto, onde a mesma investigação só se tornará possível se os interlocutores estiverem de acordo com os princípios básicos e da mesma forma, quando eles concordam dialogar honestamente seguindo as regras da demonstração dialética. O discurso dialético está no âmbito do razoável, enquanto o discurso lógico é o discurso racional por excelência.
Para Aristóteles, o conhecimento provém dos sentidos, através dos dados por eles apresentados, em seguida esses dados são apresentados à memória que vai agrupá-los em forma de imagens de acordo com suas características comuns.
CONCLUSÃO
Concluímos que a preocupação com a linguagem não é uma temática da qual somente a filosofia contemporânea veio a se ocupar. Essa preocupação já está presente nos gregos. Claro que para estes toda a filosofia não se reduzia a uma mera analise lingüística como desejaram e desejam alguns contemporâneos. Eles estavam mais preocupados com o descobrimento da essência das coisas, o que vem a ser a própria metafísica.
Desta forma vimos que em Platão o problema da linguagem é debatido em torno da sua relação com o objeto a que nomeia, ou seja, se a linguagem é algo convencional ela se distancia da essência da coisa que nomeia, no entanto, se ela é algo natural ela imita a essência do objeto nomeado e se aproxima deste. Contudo Platão não chega à conclusão alguma e não defende nenhuma tese nem outra.
Em Platão o discurso e forma de investigação privilegiada é o diálogo. Percebemos que Aristóteles, seu discípulo, se distancia dele neste ponto. Para o estagirita existem diferentes formas de discurso: o lógico; o dialético; e o retórico; mas o discurso privilegiado em sua obra é o discurso lógico, em detrimento aos outros dois. O discurso analítico é o discurso racional por excelência. Porém Aristóteles não despreza completamente a dialética. Para ele o discurso dialético está no âmbito do razoável e pode ser utilizado. Essa importância dada por ele ao razoável é muito comumente esquecida pela maioria dos filósofos.
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