A Ética Protestante e o
Espírito do Capitalismo de Max Weber têm como um dos escopos demonstrar de que
maneira o movimento protestante do século XVI iniciado pelo monge agostiniano
Martinho Lutero influenciou para formação do espírito do capitalismo. Desde já
é importante salientar que o pensador alemão admitia que o capitalismo
originou-se devido a diversos fatores, porém Weber procurou estudar mais
detalhadamente a esfera religiosa.
É
de extrema importância para o entendimento deste trabalho conceituarmos o que
vem a ser o espírito do capitalismo :
“O espírito do capitalismo é uma ética de vida, um modo de ver e encarar a
existência. Ser capitalista, antes de tudo, não é ser uma pessoa avara, mas ter
uma vida disciplinada ou ascética, de tal forma que as ações praticadas sempre
revertam em lucro”. (Sell, 2004, p.118). Compreendido o que é o espírito do
capitalismo, o próximo passo é demonstrar a contribuição que o luteranismo e
principalmente o calvinismo forneceram para a formação deste espírito.
Lutero entende que a salvação não é
conquistada através da fuga do mundo como faziam os monges se enclausurando em
mosteiros, mas sim em trabalhar em sua vocação concedida por Deus.
“O
único modo de vida aceitável por Deus não estava na superação da moralidade mundana
pelo ascetismo monástico, mas unicamente no cumprimento das obrigações impostas
ao indivíduo pela sua posição no mundo. Essa era sua vocação”. (Weber, 2004,
p.68).
Certamente
esta valorização do trabalho ascético (intramundano), dada por Lutero foi de
grande importância para a formação do espírito do capitalismo, porém, como já
foi afirmado acima é com o calvinismo e sua doutrina da predestinação que
encontramos dentro das seitas protestantes a melhor relação entre a ética
protestante e a origem do capitalismo.
De acordo
com o calvinismo, Deus em sua onipotência e mistério predestinou cada um de nós
à salvação ou à condenação, sem que, por nossas obras e esforços, possamos
modificar este decreto divino, portanto somente Deus em sua sabedoria e bondade
sabe e escolhe quem será salvo ou não, todavia o homem que será salvo ou
condenado tem o dever de trabalhar para a glória de Deus , e de criar seu reino
sobre a terra. Obviamente esta incapacidade humana no tocante a salvação instigará
no homem certo sentimento de angústia. Como posso saber se sou um dos
eleitos? “O calvinista não pode
saber se será salvo ou condenado, o que é uma conclusão que pode se tornar
intolerável. Por uma inclinação não lógica, mas psicológica, procurará no mundo
os sinais de sua escolha”. (Aron, 2002, p.784).
De acordo com os calvinistas,
apesar de somente Deus saber quem será salvo
ou condenado, aqui na terra poderemos ter alguns indícios que respondam
a questão acima.Se o cristão está no mundo para glorificar a Deus mediante ao
trabalho em sua vocação, um dos indícios que o mesmo é um dos que se salvarão
consiste no sucesso no trabalho e conseqüentemente na riqueza, porém, o bom
cristão não vai esbanjar o seu dinheiro, vivendo na luxúria e na ociosidade,
mas sim vai gastar somente o necessário
e o restante vai investir em sua produção. Certamente esta postura tomada pelos
calvinistas foi uma das mais poderosa alavanca concebível para a expansão dessa
atitude diante da vida, que chamamos aqui de espírito do capitalismo.
“Ora, trabalhar racionalmente tendo em vista o lucro,
e não gastá-lo, é por excelência uma conduta necessária ao desenvolvimento do
capitalismo, sinônimo do reinvestimento contínuo do lucro não consumido. É aí que aparece, com o máximo de clareza, a
afinidade entre uma atitude protestante e a atitude capitalista” . (Aron, 2002,
p.786).
Portanto como podemos perceber, segundo o
calvinismo, a riqueza é um sinal da salvação, isto não significa
necessariamente que todas as pessoas com grande poder aquisitivo estarão na
glória eterna, mas sim que a mesma é apenas um indício que você é um dos
escolhidos para a salvação. Assim, a verdadeira objeção moral é quanto ao
afrouxamento na segurança da posse, ao gozo da riqueza com o subseqüente ócio,
ás tentações da carne e, acima de tudo ao desvio de uma vida de retidão.
“Assim,
a riqueza seria eticamente má apenas à medida que venha a ser uma tentação para
um gozo da vida no ócio e no pecado, e sua aquisição seria ruim só quando
obtida com o propósito posterior de uma vida folgada e despreocupada. Mas como
desempenho do próprio dever na vocação, não só é permissível moralmente, como
realmente recomendada”. (Weber, 2004, p.122).
Esta valorização da riqueza e
do trabalho ascético gerou uma ética de vida, que em sua veemência adentrou na
vida das pessoas, modelando suas ações e costumes, permitindo então a formação
deste espírito capitalista que não via problema algum na aquisição racional de
bens, mas sim no uso irracional da riqueza, porém, segundo Weber com o tempo o
capitalismo perdeu sua motivação religiosa e ganhou vida própria, o homem
passou a ser escravo do capitalismo (gaiola de ferro).
“Uma
vez que o ascetismo se encarregou de remodelar o mundo e nele desenvolver seus
ideais, os bens materiais adquiriram um poder crescente e, por fim, inexorável
sobre a vida do homem como em nenhum outro momento da história. Hoje, o
espírito do ascetismo religioso quem sabe definitivamente fugiu da prisão. Mas
o capitalismo vitorioso, uma vez que repousa em fundamentos mecânicos, não
precisa mais deste suporte” . (Weber, 2004, p.135).
Enfim, como podemos perceber
Max Weber diferentemente de Karl Marx, preconizava que o sistema capitalista
jamais será extinto do mundo.
“O mundo é apresentado por Weber como uma jaula de ferro, diante da qual o
pensador não vê nenhuma saída”. (Sell, 2004, p. 217). Max Weber não
pretendeu objetar a teoria de Marx aplicando a inversão de causa em efeito, ou
seja, explicando a esfera econômica pela religiosa.
“Nada
mais falso do que imaginar que Max Weber sustentou tese exatamente oposta à de
Marx, explicando a economia pela religião em lugar de explicar a religião pela
economia”.(Aron, 2002, p.788).
Apesar de ser criticado por
muitas pessoas que infelizmente interpretam seu pensamento erroneamente, o grande
objetivo de Weber em suas obras foi mostrar que há uma grande interação entre
religião e economia.
“O
que quis demonstrar é que a atitude econômica pode ser orientada pelo sistema
de crenças, tanto quanto o sistema de crença pode ser comandado, num dado
momento, pelo sistema econômico”.(Aron, 2002, p. 789).
Em suma, A Ética Protestante
e o Espírito do Capitalismo de Max Weber vêm nos mostrar de forma clara e
científica que o conjunto de crenças arraigados no homem interfere
incisivamente em sua ação, fazendo parte deste aparato todo que norteia o
processo de evolução humana.
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