É preciso amar as pessoas Como se não houvesse amanhã Por que se você parar Prá pensar Na verdade não há...
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Alguém me tocou
A Sacramentalidade da
Sacrassantum Concílium
O encontro
• O tocar e ser tocado: todos precisamos
• Tocando em alguém, tocamos a pessoa, o seu íntimo
• Tocar cria relações. Encontro
• Sem toque não há relação, nem encontro.
Tocar Deus
• Uma mulher toca a roupa de Jesus na esperança de ficar curada (Mc 9,20-22).
• Jesus: quem me tocou?
• Jesus é reconhecido na fé como o Deus conosco, o Emanuel, o Filho de Deus
• A força que vem de Deus é a força do próprio Espírito Santo. Ele é o Deus-conosco, o Filho de Deus. “Quem me vê, vê o Pai”.
• Ver Jesus é ver, ouvir e tocar o próprio Deus.
• Em Jesus Deus se tornou visível, palpável
• Em Jesus Deus se deixou tocar e ser tocado
Uma nova maneira de se
pensar a liturgia
• Falemos de liturgia a partir da imagem do ´toque´
• Antes do Concílio: ´sacramento´ se referia aos 7 sacramentos, e ´liturgia´ às celebrações.
• Liturgia se referia à exterioridade e às cerimônias, às rubricas.
• O Vaticano II mudou essa concepção: fala de Igreja como sacramento ou mistério e liturgia como ação de Deus que vem salvar o seu povo.
• Os bispos quiseram voltar às fontes e se valeram de vários movimentos: bíblico, litúrgico, ecumênico... Importava aos Bispos não apenas a maneira de celebrar mas pela teologia e pela espiritualidade das celebrações.
• E assim voltou-se a falar de liturgia como sacramento, mistério a exemplo dos primeiros séculos.
Liturgia situada na história da salvação
• Na SC a liturgia é situada na longa história da salvação que tem como centro e ponto culminante JESUS.
• O tempo antes de JC é tempo de preparação e o tempo dele é o tempo da Igreja.
• Isto é ´economia da salvação´: Deus age na nossa história como um pedagogo, que respeita o nosso limite e o nosso ritmo
• Deus está presente no mundo e faz com que o seu desígnio aconteça. Isto é o mistério que fala a carta aos Efésios e aos Colossenses
Liturgia situada na história
• O ‘mistério’ se refere à revelação da própria pessoa de Deus, ao seu plano para com a humanidade, à comunhão de vida que oferece a todos os seres humanos, incluindo todas as realidades criadas.
• Num primeiro momento, tempo de preparação, o mistério de Deus, seu ‘desígnio’ ficou em segredo; esta etapa corresponde à 1ª aliança, ao povo de Israel
• Depois deste período veio o ponto alto, o momento decisivo: a ‘encarnação’ de Deus como ser humano.
Liturgia e história
• Em Jesus, toda a realidade é ‘recapitulada’, assumida, e em sua pessoa, em sua maneira de viver, pensar, agir... e, principalmente, em sua morte-ressurreição, o mistério é revelado, manifestado, dado a conhecer. Mas, ainda, não plenamente realizado.
• Estamos vivendo agora o tempo intermediário entre a ressurreição e a parusia, quando finalmente o Reino de Deus estará plenamente instaurado.
Relação entre MISTÉRIO E SACRAMENTO
• É importante perceber a relação entre mistério e sacramento nos primórdios do cristianismo.
• No texto latino da Bíblia, a palavra grega mysterion vem habitualmente traduzida por sacramentum. A Vulgata prefere a palavra mysterium, uma forma latinizada da palavra grega
• Na carta aos Efésios e aos Colossenses S.Paulo usa indistintamente os dois termos, ou seja, o sentido originário da palavra ‘sacramento’ é... o mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo
• É este mistério que é celebrado na liturgia, através de sinais sagrados, sensíveis e eficazes, para dele podermos participar. Daí o uso das duas palavras, mistério e sacramento, também para designar a liturgia em seu conjunto e seus detalhes
• Sto Agostinho chega contar 300 mistérios ou sacramentos.
A estrutura sacramental na economia da salvação
• Há uma íntima e indissolúvel conexão na ordem atual da salvação entre Cristo, Igreja e Liturgia
• É uma conexão de causalidade(Cristo age na Igreja e através dela, a Igreja age na liturgia e através dela) e de estrutura sacramental, de mysterium:
• “Realidade visível e sensível que, de algum modo, contém e comunica aos que estão bem dispostos uma realidade invisível, sagrada e divina da ordem da salvação, (...) manifestada a quem tem fé e escondido a quem não a tem. Tal é a estrutura de Cristo, tal a estrutura da Igreja, tal a estrutura da Liturgia”
A economia da salvação
• Cristo é o sacramento primordial; a Igreja é o sacramento geral; a Liturgia é o sacramento mais restrito, particularmente nos sete sacramentos
• Relacionando com a imagem do toque, podemos dizer assim: na pessoa de Jesus, Deus `tocou' nossa humanidade para salvá-la, para realizar o encontro, a comunhão
• Hoje, o Cristo Ressuscitado continua nos ‘tocando’ em seu corpo, que é a Igreja, e nos mistérios celebrados, nas ações simbólico-sacramentais realizadas nela, por ele.
A economia da salvação
• A SC lembra a estrutura humano-divina da pessoa de 'Cristo e de sua obra: “Deus enviou seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, (...) médico carnal e espiritual (...) Sua humanidade, na unidade da pessoa do Verbo, foi o instrumento de nossa salvação...”.
• Depois apresenta a Igreja como sacramento nascido de Cristo: “do lado do Cristo, dormindo na cruz, nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja” (SC 5). Também ela é humana e divina, sendo que “o humano se ordena ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação e o presente à cidade futura (SC 2); é a ação invisível do Espírito, servindo-se de meios humanos e visíveis.
• Em, seguida, fala da liturgia: é um conjunto de sinais sensíveis através dos quais Cristo continua sua obra de salvação de toda a humanidade e de glorificação de Deus, unindo a si a sua Igreja para levar avante esta obra. “Disto se segue que toda a celebração litúrgica (...) é uma obra sagrada por excelência, cuja eficácia nenhuma outra ação da Igreja iguala...” (SC 7)
Avanços da liturgia na SC
• Os avanços da SC ao caracterizar a liturgia:
• 1) A liturgia volta a ser considerada como sacramentum, mysterium e salienta-se a ‘sacramentalidade’
• 2) É dado grande relevo aos sinais sensíveis através dos quais Cristo age na liturgia
• 3) Este complexo de sinais não se refere somente ao culto prestado por nós a Deus (glorificação), mas também à santificação operada em nós por Deus, considerando assim o duplo movimento (ascendente e descendente) da liturgia
Sinais sensíveis, significativos e eficazes
• A SC 7 diz que a liturgia se realiza com sinais:
• 1) São sinais sensíveis, pois atingem a nossa sensibilidade. Nós podemos ver, ouvir, cheirar, degustar...
• Temos que cuidar da maneira de celebrar e de cultivar a forma das ações litúrgicas (Sc 47). Daí a exigência da verdade destes sinais: pão de verdade, água e óleo em abundância...
• A música é parte integrante necessária, intimamente ligada a ação litúrgica (SC 122).
• Da arte sacra, vestes litúrgicas, vasos e objetos pertencentes ao culto: sejam “dignos, decentes e belos,sinais e símbolo das coisas do alto (SC 122)
• 2) Os sinais sensíveis foram escolhidos por Cristo e pela Igreja para significar as coisas divinas invisíveis (Cf. SC 33). São sinais simbólicos, sacramentais: sinais sensíveis que remetem à realidade invisível, ao mistério de nossa fé, ao mistério pascal de Jesus Cristo.
Os sinais...
• Os sinais sensíveis foram escolhidos por Cristo e pela Igreja para significar as coisas divinas invisíveis
• São sinais simbólicos, sacramentais: sinais sensíveis que remetem à realidade invisível, ao mistério de nossa fé, ao mistério pascal de Jesus Cristo.
• São `sacramentos da fé‘, não só a supõem, mas a alimentam
• Requerem conhecimento das coisas da fé
• De fato, os sinais devem alimentar a fé dos fiéis e despertar suas mentes para Deus. É necessário que os participantes “acompanhem com a mente as palavras (...), participem com conhecimento de causa, ativa e frutuosamente"
•
Sinais...
• Esses sinais sensíveis, escolhidos para significar as coisas da fé, são eficazes, isto é, realizam o que significam
• A eficácia dos sinais sensíveis na liturgia vem do fato de se tratar de ações do Cristo com seu Espírito, presente, não somente no pão e no vinho eucarísticos, mas igualmente no ministro que preside, na palavra anunciada (é ele que fala), no batismo (é ele que batiza), na assembléia reunida que ora e canta
• Não basta celebrar. É necessário continuidade, testemunho no meio do mundo
• São Leão Magno dizia que é nas ações litúrgicas que vemos, ouvimos, percebemos o Cristo Crucificado-Ressuscitado vindo ao nosso encontro, atuando, salvando, instaurando o seu Reino.
Sinais e símbolos que vão além da liturgia
• A liturgia é apresentada como um conjunto de sinais com os quais o Ressuscitado, com o seu Espírito, nos atinge quando estamos reunidos e celebramos sua memória.
• Mas, o Ressuscitado atinge o universo inteiro, sua ação não conhece limites geográficos, étnicos, sociais, filosóficos ou religiosos
• Ele está em contato com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo
Sinais que extrapolam a liturgia
• A liturgia é um momento de expressão, de epifania, de manifestação deste mistério presente em toda a realidade pessoal, social, universal. É um ‘ato de linguagem’.
• Como cristãos, que aceitamos a revelação do mistério em Cristo, reconhecemos sua presença em experiências cotidianas de vida e morte, de encontros e desencontros, de força e fragilidade..., nos sinais dos tempos, no desenrolar da história...
• E somos chamados a reconhecer, nomear, apontar, expressar, manifestar... este mistério, celebrando a memória de Jesus.
• os momentos litúrgicos, celebrativos, não podem mais ser entendidos como únicos momentos de salvação, mas como expressão de uma atuação de Deus que extrapola a celebração.
Sinais que vão além da liturgia
• Depois do concílio, a teologia litúrgica e sacramental substituiu a teoria da instrumentalidade pela teoria simbólica
• Não entendemos mais os sacramentos e a liturgia como os únicos momentos de encontro com o Crucificado/Ressuscitado, mas como momentos simbólicos que expressam e intensificam nossa imersão e participação no mistério de Cristo ao longo da vida
• Superamos a compreensão estreita, individualista, quase que mecânica... pela qual os sacramentos eram entendidos antes do concílio, como ‘instrumentos’ da salvação, sem relação com o mistério pascal e sem a preocupação com a adesão pessoal da fé, consciente e consequente por parte de quem recebia o sacramento. A mentalidade “batizou, salvou” foi ultrapassada pelo concílio.
A sacramentalidade e seus desafios
• Alguns aspectos da sacramentalidade da liturgia, apresentados na SC que são significativos para os dias de hoje:
• 1) A colocação da liturgia dentro da história e da economia universal da salvação, com ênfase na ‘recapitulação’ de tudo em Cristo, abre perspectivas para celebrações litúrgicas, atentas aos acontecimentos atuais, a aspectos da revelação de Deus em outras tradições religiosas ou espirituais e na busca da verdade através do trabalho científico.
A importância da sacramentalidade
• A salvação diz respeito à nossa realidade atual. De que necessitamos ser salvos? Onde estamos nos perdendo, em nível pessoal, comunitário, social, cósmico?
• Em cada comunidade local, a liturgia deverá anunciar a salvação dentro da situação real de 'perdição': fome, miséria, desigualdade social, violência, consumismo, dependência de drogas, discriminação e exclusão social, racial, sexista, religiosa, falta de busca do sentido profundo da vida...
• Não podemos deixar de expressar nas celebrações litúrgicas as alegrias e as tristezas da humanidade. Não podemos deixar de levar a um compromisso ético e de preservação dos recursos naturais.
A importância da sacramentalidade
• Devemos perceber e celebrar o mistério pascal acontecendo na atualidade, como páscoa de Cristo na páscoa da gente (CNBB).
• Com palavras, símbolos e ações litúrgicas devemos expressar a atuação de Cristo e de seu Espírito em nossa realidade.
• Como a vida está vencendo a morte? Como a ressurreição está acontecendo entre nós? Quais os sinais que revelam a presença de Cristo entre nós?
Cuidado com ecologia
• O cuidado com a ecologia pode transparecer também na maneira simbólica, significativa de usar a água, o óleo, o pão e o vinho, o incenso, as flores... nas ações litúrgicas. Afinal, por força da encarnação de Deus e da recapitulação de todo o universo em Cristo, o cosmos foi, por assim dizer, re-criado; fala-nos da ressurreição e da vida nova em Cristo.
• Podemos até falar do mundo como corpo de Deus que merece respeito, admiração, cuidado e que nos leva à adoração, ao louvor...(McFague).
Proposta de nova sociedade
• 4) A liturgia, como expressão do mistério da salvação, traz em seu bojo a proposta para uma nova sociedade, baseada na dignidade de cada ser humano e na vocação da humanidade para a comunhão e a participação (koinonia).
• Até que ponto nós conseguimos expressar isto na nossa maneira de organizar, presidir, ou mesmo de realizar ações litúrgicas?
A ritualidade
• 5) Não é possível, expressar a fé na liturgia sem levar a sério os ‘sinais sensíveis’, sem levar a sério a ritualidade, sem uma consciência simbólica, sem aprender a vivenciar as ações litúrgicas com nosso ser por inteiro, de forma holística (corpo/mente/coração/espírito).
• Temos consciência de que, através dos sinais sensíveis da liturgia (coisas para ver, ouvir, sentir, cheirar, apalpar...), o Cristo ressuscitado, com seu corpo glorioso, nos `toca' com seu Espírito divino e quer transformar, pascoalizar a nós e a toda a realidade histórica e cósmica?
Os ritos
• Pelos ritos nossa realidade humana entra em contato com a vida divina, criadora, restauradora, presente sacramentalmente na assembléia reunida, na Palavra proclamada,no pão e vinho partilhados, nos cantos e gestos de oração.
• Temos presente que somos tocados por Cristo em sua realidade humana e divina?
• Através dos sinais sensíveis da liturgia, com nossa corporeidade, podemos ver o Cristo, ouvir o Cristo se ser tocados por Ele. É Deus ao alcance de nossos olhos e de nossas mãos. Deus nos toca e se deixa tocar, em mistério, sacramentalmente, para realizar conosco a grande comunhão, até que Deus seja tudo em todos.
Expressamos a fé em nossa vida
• A cada celebração expressamos a nossa fé ritualmente, por sinais sensíveis que realizam o que significam.
• A cada celebração litúrgica nos unimos cada vez a Cristo, como povo de Deus e assumimos o compromisso de viver nossa vida toda pascalmente, evangelicamente, num mundo que prega a guerra, o consumismo, o egocentrismo, o prazer...
Uma indagação final?
• Por fim, cabe uma indagação: por que não vingou a proposta da SC nestes 40 anos no que diz respeito à sacramentalidade da liturgia? Onde a renovação litúrgica está estrangulada e por quê? Quais os obstáculos e como podemos removê-los?
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