domingo, 9 de junho de 2013

mal moral e natural

MAL MORAL “Acho que o núcleo de qualquer teodiceia tem de ser a «defesa do livre arbítrio» que se ocupa – inicialmente – do mal moral, mas que pode ser alargado para se ocupar de grande parte do mal natural. A defesa do livre arbítrio preconiza que a possibilidade de os seres humanos terem certo tipo de livre arbítrio, a que chamarei escolha livre e responsável, é um grande bem, mas que, se o tiverem, haverá necessariamente a possibilidade natural do mal moral. (Com «possibilidade natural» quero dizer que não estará determinado à partida se o mal irá o não ocorrer.) Um deus que dê aos seres humanos tal livre arbítrio dá necessariamente origem à possibilidade do mal moral e deixa fora do seu próprio controlo a sua ocorrência ou não. Não é logicamente possível – isto é, seria autocontraditório supor – que Deus possa dar nos esse livre arbítrio e que, no entanto, garanta que usamos sempre bem. A escolha livre e responsável não é apenas o livre arbítrio no sentido restrito de poder escolher entre acções alternativas, sem que a nossa escolha tenha sido causalmente determinada por uma qualquer causa anterior. […] Ter a possibilidade da escolha livre e responsável é antes ter livre arbítrio […] para fazer escolhas entre o bem e o mal que sejam significativas, profundamente importantes para o agente, para os outros e para o mundo. […] Os seres humanos têm oportunidade de provocar a si mesmos e aos outros sensações agradáveis e de cultivar actividades úteis – jogar ténis ou tocar piano, aprender história, ciência e filosofia, e ajudar os outros a fazê¬ lo, construindo assim profundas relações pessoais baseadas nessas sensações e actividades. E os seres humanos são feitos de tal maneira que podem moldar os seus caracteres. «Tornamo nos justos ao praticar actos justos, prudente ao praticar actos prudentes, corajosos ao praticar actos corajosos», observou Aristóteles. Isto é, ao praticar um acto justo quando isso é difícil – quando isso contraria as nossas inclinações naturais (que constituem aquilo que entendo por desejos) – estamos a tornar mais fácil a prática do próximo acto justo. […] E ao escolher adquirir conhecimento e ao usá lo para construir máquinas de vários tipos, os seres humanos podem alargar o âmbito da sua intervenção no mundo – podem construir universidades que perduram séculos ou poupar energia para a próxima geração; e, através do esforço cooperativo ao longo de muitas décadas, podem eliminar a pobreza. As possibilidades de escolha livre e responsável são imensas. É bom que as escolhas livres dos seres humanos incluam uma responsabilidade genuína pelos outros seres humanos – e isso implica a oportunidade de os beneficiar ou de os prejudicar. […] Um mundo no qual os agentes possam beneficiar se mutuamente, mas não prejudicar se é um mundo no qual só têm uma responsabilidade muito limitada uns pelos outros. Se a minha responsabilidade por si se limitar à questão de saber se lhe darei ou não uma máquina de filmar (camcorder) e não lhe puder causar dor, tolher o seu desenvolvimento ou limitar a sua formação, não terei uma grande responsabilidade relativamente a si. […] A possibilidade de os seres humanos originarem muito mal é uma consequência lógica do facto de terem esta escolha livre e responsável. Nem mesmo Deus poderia dar nos esta escolha sem a possibilidade do mal resultante. […] O meu sofrimento seria puro prejuízo para mim se a única coisa boa na vida na vida fosse o prazer sensorial e se a única coisa má fosse a dor sensorial; e é porque o mundo tem tendência para pensar nestes termos que o problema do mal parece tão veemente. Se estas fossem as únicas coisas boas e más, a ocorrência do sofrimento seria sem dúvida uma objecção conclusiva à existência de Deus. Mas já vimos o grande bem que consiste em escolher livremente e em influenciar o nosso futuro, o dos nossos semelhantes e o do mundo. […] Mesmo assim, tem de haver limites ao direito de Deus permitir que os seres humanos se magoem uns aos outros; e há limites no mundo quanto à quantidade de mal que os seres humanos podem infligir uns aos outros, limites que resultam sobretudo da finitude da curta vida dos seres humanos e das outras criaturas […]. Um sofrimento sem fim e imposto ofereceria, quanto a mim, um argumento fortíssimo contra a existência de Deus. Mas não é essa a situação humana. MALNATURAL O papel principal do mal natural é tornar possível aos seres humanos ter o tipo de escolha que a defesa do livre arbítrio enaltece, assim como oferecer aos seres humanos tipos de escolhas particularmente valiosas. […] Um mal natural específico, tal como a dor física oferece uma escolha à sua vítima – pode suportá la com paciência ou lamentar a sua sorte. Os seus amigos podem escolher entre mostrar compaixão e ser indiferentes. […] As acções boas ou más que realizamos face ao mal natural fornecem elas próprias oportunidades para outras escolhas – de posturas boas ou más relativamente às primeiras acções. Se eu for paciente com o meu sofrimento, o leitor pode escolher encorajar me ou rir se de mim; se eu lamentar a minha sorte, o leitor pode ensinar me, pela palavra e pelo exemplo, que a paciência é uma coisa boa. Se o leitor for compreensivo, terei então a oportunidade de mostrar gratidão, ou de ser tão egocêntrico que a ignore. Se o leitor for indiferente, posso escolher ignorá lo ou ficar ressentido para o resto da vida. E assim por diante. […] Poderia, no entanto, sugerir se que a ocorrência do mal moral forneceria oportunidades adequadas para podermos praticar essas grandes acções sem ser preciso que o sofrimento fosse causado por processos naturais. Tanto podemos mostrar coragem quando somos ameaçados por um homem armado, como quando somos ameaçados pelo cancro […]. Imagine, no entanto, que se elimina de uma vez todo o sofrimento mental e corpóreo causado pelas doenças, terramotos e acidentes que os seres humanos não podem evitar. Muitos de nós teriam então uma vida de tal modo fácil que não teríamos pura e simplesmente oportunidades de mostrar coragem nem, na verdade, de nos manifestarmos de maneira muito bondosa. […] Os males naturais dão nos o conhecimento para fazermos várias escolhas entre o bem e o mal e a oportunidade de desempenhar acções de tipos particularmente valiosos. […] Que dizer quanto ao […] sofrimento [dos animais]? Estes já sofriam muito antes de os seres humanos terem aparecido neste planeta – há exactamente quanto tempo é uma questão que depende do problema de saber quais os animais que são seres conscientes. […] O bem dos animais, como o dos seres humanos, não consiste unicamente em emoções de prazer. Também para os animais há coisas mais valiosas, especialmente acções intencionais e, entre estas, acções intencionais profundamente significativas. Os animais procuram um par para acasalar mesmo que estejam cansados e tenham dificuldades em encontrá lo. Dão se a grandes trabalhos para construir ninhos e para alimentar a sua prole, para iludir os predadores e para explorar o seu território. Mas tudo isto envolve inevitavelmente dor […] e perigo. […] Os animais não escolhem livremente executar essas acções, mas estas têm, apesar disso, valor. É óptimo que os animais alimentem a sua prole e não apenas a si mesmos; que os animais explorem o seu território quando sabem que isso é perigoso; que os animais se salvem uns aos outros dos predadores; e assim por diante. Essas são as coisas que dão valor às vidas dos animais; mas elas implicam muitas vezes algum sofrimento […]. Regressemos ao caso central dos seres humanos – o leitor concordará comigo na exacta medida em que valorizar muito mais a responsabilidade, a escolha livre e o ser se útil, do que as emoções de prazer ou a ausência da dor. “

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